Lupilar para a sustentabilidade. Literatura, ambiente e sociedade moreColóquio Letras 179 (Janeiro/Abril 2012): 87-97 |
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Lupilar para a sustentabilidade
LITERATURA, NATUREZA E SOCIEDADE
Ana Isabel Queiroz
se considerarmos a cria^ao do termo 'ecocriticismo'1 como o momento
fundador do estudo da rela^o entre a literatura e o ambiente, este ja cele-
bra mais de 30 anos. De outro modo, se considerarmos que so nos anos de
1990, com a criacao da asle — Association for the Study of Literature and
Environment, se lancaram os alicerces teoricos para a construcao de umanova
area interdisciplinar, reconhece-se tambem a maturidade do debate intenso e
prolongado que desde ai se realizou, e a maioridade que advem de se reunirem
professores, escritores, estudantes, artistas e ambientalistas interessados nos
elementos naturais e nas suas representacoes nalinguagem e na cultura2. Com
base no argumento de que os escritores sao capazes de escutar e ver para la do
discurso politico, e descobrir areas inexploradas que podem ser vitais para a
nossa consciencia coletiva, alguns dos que praticam a analise dos conteudos
ambientais na literatura defendem que esta pode funcionar como um tipo de
ativismo, exercido sobretudo atraves da experiencia pedagogica.
A crise ambiental, que tambem nas ultimas decadas se desenhou com
contornos mais nitidos, novas materias e uma escala planetaria (e.g. a proble-
matica das alteracoes climaticas), rea^ou o papel pedagogico e de interven9ao
assumido pelo ecocriticismo. Enquanto «capacidade para investigar produ-
tos culturais numa perspetiva ecologica»3, esta ponte entre a literatura e o
ambiente tem-se revelado uma fonte de conhecimento sobre as ideias de natu-
reza e a evolucao da relacao dos humanos com o meio natural, e um palco para
reflexoes sobre valores e atitudes compativeis com a etica da terra (tal como
Aldo Leopold a entendeu e, mais recentemente, outros a desenvolveram4).
Neste contexto fortemente politizado e polemico5 surgem as palavras de
Lawrence Buell: «Espero que o leitor partilhe o meu sentir acerca das obras de
escrita criativa, reconhecendo o seu poder de influenciar as for9as que mode-
lam o ambiente, e combatendo a visao restrita e superficial do que nos inquieta,
para melhor compreendermos o que o ambiente e ou pode ser»6. Se John
i
Felstiner respondeu afirmativamente a sua propria interrogate) Can poetry
save the Earth?7, Lewis, Rodgers e Woolcock8 mostraram como os textos lite-
rarios, com realce para as narrativas de fic9ao, podem fornecer <<informa9ao
fidedigna sobre o desenvolvimento social», em virtude da sua capacidade de
representar diferentes perspetivas da mesma situa9ao, personagens, variaveis
culturais, contextos, etc.
Neste artigo, reflete-se sobre o potencial pedagogico da fabula — do
verbo latino arcaico for, faris, fari, fatus sum, que significa^a/^r, dizer e, no
seu sentido poetico, celebrar (a palavra)9, evidenciando uma leitura capaz de
contribuir para pensar nos temas ambientais da atualidade e gerar atitudes
compativeis com apartilha solidaria dos recursos naturais e a sustentabilidade.
Assume-se a leitura critica do texto literario como um contributo para a con-
cretiza9ao dos objetivos da Decada das Na9oes Unidas para a Educa9ao para
o Desenvolvimento Sustentavel 2005-2014, de acordo com a resolu9ao 57/254
da Assembleia Geral das Na9oes Unidas, de 20 de dezembro de 200210. Atraves
de A Montanha da Agua Lilds, Fabula para todas as idades (2000), de Pepetela,
as vozes de seres da natureza a que o escritor chamou lupis trazem-nos as difi-
culdades enfrentadas por uma sociedade que empreende uma sobre-explora-
9ao de um bem natural, entrando num vortice de destrui9ao natural e social.
objeto fabula
O que se tern escrito sobre a origem, a evolu9ao, o conteudo e a forma
da fabula dispensa um retrato exaustivo do genera literario no contexto em
que este artigo se apresenta. Todavia, a complexidade e polissemia dos termos
fabula efabuloso11 exigem uma breve clarifica9ao sobre as caracteristicas que
aqui se relevam: ser uma expressao literaria metaforica ou alegorica, em que os
protagonistas sao animais ou outros seres nao-humanos da natureza, e corner
uma fun9ao formativa.
Nelly Novaes Coelho resume o percurso literario da fabula — «procede
da India (por volta do seculo viii a.C), dali passa a Persia, China e Japao;
chegando a Grecia e a Roma e dai aos nossos tempos»12 —, distinguindo qua-
tro idades historicas: a Amiga ou Primitiva (India e Grecia), a Media (Roma
e Ocidente medieval e renascentista), a Moderna (do seculo xvn ao xix) e a
Contemporanea (seculo xx). Neste ultimo periodo, e principalmente a partir
dos anos 60,« as antigas fabulas tern sido redescobertas e nao so reinventadas em
seus temas de origem, como novas fabulas vem sendo inventadas, com a mate-
ria complexa e contraditoria oferecida pelo mundo deste final de milenio»13.
As fabulas podem catalogar-se como animal stories, 'historias de animais',
mas nao sao 'historias sobre animais'. Apesar de as suas personagens se desig-
narem com os nomes comuns de especies domesticas ou selvagens (e.g. cao,
lobo, corvo, sapo), a informa9ao sobre a sua historia natural e frequentemente
2
uma materia irrelevante, ou fantasiada pelo processo de criacao poetica. Sao
tambem humanos os seus codigos de comportamento, cogni9ao e linguagem,
apresentando-se os animais apenas como veiculos de mensagens que nao os
descrevem na sua especificidade biologica. Ainda assim, os tipos zoomorficos
estao simbolica e culturalmente identificados (e individualizados): cada um
assume recorrentemente o mesmo papel na narrativa, e a sua presenca, carica-
tural e anedotica, e usada para uma representacao de sentimentos ou atitudes
humanas.
As fabulas sao 'historias com animais'. Nelas, da-se voz aos nao-humanos
para que possam dizer o que se julga os humanos precisam de ouvir. E esta voz,
que se revela critica, e uma materia-prima de reflexao e interven9ao.
Aquilo a que Luciano Pereira chama «pedagogia do universo simbo-
lico», «espaco de fusao dos mundos, dos espacos e dos tempos, ponto cruz do
imaginario, com a sua funcao transcendente, pedagogica e terapeutica»14, vive
sobretudo da exploracao das conota9oes adquiridas pelos animais, tornados
simbolos ou emblemas. Mas, mais do que dos esteriotipos que cada um deles
tern adquirido em contextos culturais particulares (e.g. no Ocidente, a raposa
e astuta, a formiga e laboriosa), o seu potencial parece derivar de uma diale-
tica entre signos opostos (humano/nao humano; forte/fraco; bem/mal), e da
desconcertante expressao de contrastes que partem de uma realidade e ordem
comuns para um limiar de implausibilidade (e.g. uma joia que e encontrada
num monte de esterco), surpreendendo e questionando sempre.
O envolvimento emocional parece ser a chave para a capacidade revelada
pela cria9ao literaria para promover uma mudan9a de paradigma etico na
rela9ao da humanidade com a natureza. Para demonstra-lo, Tonia Payne par-
tiu das fabulas fantasticas de Ursula Le Guin, para reelaborar a ideia de que o
comportamento face a natureza resulta sobretudo de sensa9oes e sentimentos,
e que e necessario «uma mudan9a de cora9ao [...] porque aquilo que se sabe
e menos importante do que aquilo que se sente»15.
Regresse-se as palavras acima citadas de John Felstiner, e as que este con-
voca do historiador ambiental William Cronon — «para proteger o que esta
a nossa volta, devemos pensar ardua e longamente sobre a natureza que trans-
portamos dentro das nossas cabe9as, seja ela selvagem, rural ou urbana» —,
para concluir que os poemas sao o melhor veiculo para a interioriza9ao dos
valores ambientais16. Pioneiro da educa9ao ambiental em Portugal, tambem
Joao Evangelista confirmou, com a sua propria experiencia, o papel da litera-
tura na perce9ao do ambiente, que resulta da forma como os escritores expri-
mem a rela9ao entre os seres vivos e os elementos abioticos17. Atribuindo a
imagina9ao um papel crucial, o texto literario e capaz de libertar o pensamento
de estereotipos e condicionamentos previos, e abrir a porta para a apropria9ao
mtima de valores, significados e sentimentos em rela9ao a natureza.
3
Porem, a fabula foi usada em contexto educativo para leituras centradas
em preceitos morais conotados com ideologias conservadoras e repressivas18.
Nas leituras recomendadas pelo Estado Novo, os textos fabulisticos escolhi-
dos para os manuais escolares obrigatorios elogiavam canones do regime, tais
como a obediencia, a humildade, o trabalho, a tradi9ao e a famflia. Dai que,
a epoca, poetas e pedagogos se tenham manifestado contra a menorizacao a
que este genera literario estava a ser sujeito.
Aquilino Ribeiro pretendeu cortar com o que lhe parecia ser a tradicao
de Esopo, afirmando na introducao de O Romance da Raposa (publicado em
1924 e oferecido ao filho Anibal) a sua intencao de nao trazer moral, mas
apenas divertimento: «dei-lhes voz para melhor manifestarem o que sao,
e nunca para com eles aprendermos a distinguir bem e mal, aparencias ou
estados, pouco importa, atribuidos exclusivamente ao rei dos animais, como
nos jactamos de ser. Se ao fim de cada jornada bateres as palmas, dar-me-ei
por largamente recompensado. Basta que te recreies, como no jardim zoolo-
gico, para ambos nao perdermos o tempo»19. Apesar do que afirmou, no seu
'romance' e evidente uma forte intertextualidade com as fabulas classicas, com
as recriacoes de La Fontaine, e com os Contos Populares e Lendas coligidos por
Leite de Vasconcelos20.
Na assumpcao de que os animais representados sao encenacoes dos
humanos, a leitura direta da fabula podera conduzir a uma visao reducionista e
deterministica, em que a sociedade humana esta escalonadapor caracteristicas
fisicas ou intelectuais, e ainda, na mesma base, legitimamente hierarquizada
no poder e na riqueza. Ja outra leitura, mais adequada e promissora, pode
realcar as diferen9as interespecificas e intraespecificas das personagens-
metafora, abrindo portas para encontrar alternativas para o agir. Este parece
ter sido ja o uso que Aristoteles e outros oradores, filosofos e poetas gregos
deram a fabula no contexto dos seus discursos politicos e que, na atualidade,
se mantem adequado como mobil de reflexao acerca dos textos produzidos
neste genero literario: «se nestas fabulas se representa um tipo de moralidade
a que eu nao quero estar sujeito, e que eu nao quero ver adotada por outros,
de que forma posso prevenir, ou melhor podemos nos, que o mesmo ocorra
na realidade?»21. A moral (conjunto de costumes e codigos de conduta que
regulam o comportamento em sociedade) passa a etica (conjunto de valores
que orientam o comportamento em sociedade), nao em virtude do argumento
aristotelico da racionalidade exclusivamente humana, mas porque o potencial
gerado pela dramatiza9ao de atitudes e procedimentos negativos atribuidos a
'outros' (nas fabulas sao seres nao humanos), evidencia a necessidade de ser
diferente na a9ao. Esta perspetiva introduz uma dimensao etica que responsa-
biliza os humanos pelos seus comportamentos e interven9oes, sigam ou nao a
moral imposta pela sociedade em que se integram.
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Na atualidade, defende-se que a educacao deve constituir-se como «uma
atividade de compreensao tanto dos conteudos praticos das proposi9oes
como dos sujeitos eticos, aqueles mesmos que dizem as teorias e as praticas
do mundo e do bem»22. O desafio de uma educacao comprometida com a
etica ambiental reside nao tanto no facto de esta incorporar muita informa9ao
relativa ao funcionamento e preservacao dos sistemas naturais como no equa-
cionar do lugar dos humanos no contexto da natureza. Maria Jose Varandas
afirmou que «sem a desconstru9ao dos paradigmas dominantes na tradi9ao
ocidental que, explicitamente, colocam o homem a parte da natureza, qualquer
proposta de etica para o ambiente carece de fundamento solido e corre o risco
de se tornar num limitado e pouco credivel exercicio teorico»23. Ora, quando
se toma a tabula, o conto popular, ou outro texto da literatura tradicional ou
fortemente alicer9ado nela como a materia-prima de reflexao, parece dominar
o discurso nao antropocentrico: «essa profunda interdependencia entre ser
humano e vida natural, vegetal e mineral em seu redor; ou numa atitude mais
radical, humanos, animais, vegetais e minerals, todos vivos, 'anonimizados', em
redor uns dos outros, sem centraliza9ao da figura humana»24.
Estudos previos da obra de Pepetela revelam como o escritor alia a tradi-
9ao e amodernidade: em Yaka (1988), atraves de um olhar antropo-literario da
etnia kuvale, «num caminho que medeia entre a recolha etnografica (muitas
vezes com base na compila9ao de relatos orais) e a sua exposi9ao sob a forma
da palavra escrita»25; em A Parabola do Cdgado Velho, um animal que e por-
tador de ensinamentos ancestrais, valorizando a memoria enquanto forma
de «resistir e de recuperar os varios rastros identitarios formadores do tecido
multicultural de que se constitui o imaginario social angolano»26. Na analise
de A Montanha daAgua Lilds, pretende-se mostrar o fulgor e a universalidade
da fabula enquanto veiculo de problematicas que hoje preocupam a humani-
dade, sobretudo no que toca a gestao de recursos naturais.
a montanha da agua lilas
«Talvez a fabula nao fosse tao explfcita: o que devia ter sido
dito nao o foi ainda. A obscura moralidade nao saltou da
historia, e esta nao teve principio nem fim.»27
Acolhe-se o pensamento poetico de Nuno Judice aventado na epigrafe
— sera que uma nova consciencia ambiental vai saltar da historia? — e valo-
rizam-se os conteudos narrativos que, conforme objetivo expresso, podem ser
potenciados no quadro de uma educa9ao para a sustentabilidade.
A pretexto do que ouviu contar, numa clara alusao as praticas tradicio-
nais angolanas do «contar missosso»2S, o escritor ancorou a sua historia num
5
quadro de afetividade, numa estetica popular e numa fun9ao didatica e ludica,
e deu-lhe a credibilidade associada a sabedoria que emana de um territorio
vivido, que o tempo nao apagou:
O avo Bento, em noites de cacimbo a volta da fogueira, nos contou,
fumando o seu cachimbo que ele proprio esculpiu em pau especial [...]. Dizia a
estoria se passou aqui mesmo, nas serras ao lado, mas pode ser que fosse trazida
de qualquer parte de Africa. Ate mesmo do Oriente, onde dizem tambem ha
agua lilas. [...] Eu so escrevi aquilo que o avo me contou, nao inventei nada.29
Num primeiro caprtulo, Pepetela descreve a montanha, questionando
desde logo a aparencia das coisas: «Era uma montanha como todas as outras.
Mas seria mesmo?»30. Num quadro ecologico e paisagistico em que refere as
condicoes meteorologicas e identifica elementos da geomorfologia e da flora e
vegetacao nativa, introduz tambem o leitor no significado dos locais, apresen-
tando o Monro da Poesia: «Era o sitio mais calmo e perfumado da montanha
e dali se podia ver melhor o luar de Lua cheia»31. No Monro da Poesia, local
simbolico para a cultura e identidade dos lupis (onde se busca inspiracao, e
onde se canta e festeja), descobre-se umanascente de agua lilas: umliquido que
nao e agua, no qual «os odores de todas as flores estavam reunidos naquele
cheiro unico»32, que por inalacao provocava alegria.
A historia desenvolve-se numa sociedade de seres frugivoros e tranquilos.
So o nome parece distingui-los dos humanos: «Nao eram homens porque se
chamavam lupis», andavam em pe e «pensavam e falavam e trabalhavam»33.
Tal como a sociedade humana, apesar de nascerem «todos iguais», distin-
guiam-se depois, com «uns a comer e a crescer mais do que os outros»34:
os cambutas ou cambutinhas eram do tamanho de coelhos, ageis a trepar as
arvores para apanhar fruta e muito criativos; os lupoes eram do tamanho de
um chimpanze pequeno, muito serios e aptos em aritmetica, desempenhavam
fiur^oes administrativas e de organiza9ao; os jacalupis chegavam ao tamanho
de um grande macaco — apesar de comiloes, «eram praticamente incapazes
de arranjar comida para si proprios»35, as suas capacidades cognitivas eram
mais reduzidas, mas o seu comportamento indolente revela-se frequentemente
agressivo. Este tipo de lupis congou a aparecer depois de os rinocerontes
que invadiram a montanha terem sido expulsos, mas nunca se soube explicar
porque; como os jacalupis se reproduziam entre si e eram cada vez mais nume-
rosos, «[a] sociedade lupi complicou-se bue»36.
Os cambutas e os lupoes procuraram satisfazer as exigencias e os capri-
chos dos jacalupis. Mas nao era facil. Uma cascata de acontecimentos decor-
rentes do uso e explora9ao do novo recurso pos em conflito os interesses dos
varios grupos. Um comercio obsessivo e sempre crescente alterou as rela9oes
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de vizinhan9a entre os lupis e os animais da planicie, mudou todo o seu modo
de vida (incluindo a dieta), e criou elevados padroes de consumo de bens nao
essenciais. Abandonando o dialogo com cambutas e lupoes, o jacalupi-capitao
recusou-se a cumprir as regras democraticas que ate ai regiam aquela socie-
dade: «Vou vender a minha agua. Nao quero saber das vossas leis. E os outros
jacalupis tambem. Cada um governa-se por si»37. Mas o negocio da agua lilas
trouxe outras divisoes: os lupoes renderam-se ao beneficio imediato, reclama-
ram o exclusivo da gestao da agua lilas, e impuseram aos cambutas a tarefa de
apanhar fruta para todos.
Esta 'historia com lupis' e, como se torna evidente, uma historia sobre os
humanos, sobre a forma como se estrutura uma sociedade, como surgem desi-
gualdades e injusticas na partilha e usufruto de beneficios, e como mas deci-
soes podem destruir a estabilidade e a coesao social. Nestaleitura,v4 Montanha
da Agua Lilas revela-se, como acima se pretendeu, um texto sobre as diferencas
interespecificas e intraespedficas das personagens-metafora, abrindo portas
para encontrar alternativas para o agir.
Na historia de Pepetela, a montanha transforma-se na «potencia da agua
lilas»38 e, a medida que aumenta a quantidade extraida, um regime repressivo
vai-se desenvolvendo: «as reunioes estavam proibidas, eram subversivas»39;
as vozes discordantes do lupi-pensador e do lupi-sabio, ambos cambutas, sao
afastadas, e estes personagens, previamente influentes, ficam «exilados no alto
das arvores»40. O que, no inicio da fabula, se prefigura apenas como um caso
de 'tragedia dos comuns', assume-se tambem um retrato critico de uma socie-
dade injusta e autoritaria, movida pela ganancia e pela ansia de ostentacao, e
orientada pelas regras da economia de mercado.
Sera esta uma representacao do que o escritor ve na Angola de hoje? Sera
que os jacalupis sao uma metafora da oligarquia que se estabeleceu no governo
e nos negocios, apos a independencia? Um paralelo pode ser estabelecido com
esse pais, riquissimo em termos de recursos minerals (e.g. petroleo, diamantes),
dos quais so uma pequena parte da populacao beneficia, e com um regime
politico ao qual se apontam, e se apontavam nas decadas de 1980 e 1990, em
que a obra foi escrita, deficiencias graves ao nivel da liberdade e representati-
vidade democratica.
O comercio da agua lilas cresce com a procura de clientes: primeiro,
com os que aparecem para tomar banho no tanque; depois, com os que a
compram em cabacas. A sobre-explora9ao e a venda em bruto da materia-
prima, Pepetela contrapoe a sensatez do lupi-pensador: «A agua lilas e um
bem que e preciso saber utilizar. Com ela poderiamos fazer muitas coisas que
o lupi-sabio inventou. E gasta-la corretamente [...]. Na planicie estao a estudar
outras aplica9oes.»41 Aplica9oes perigosas, conta-nos: uma armapara os leoes
derrotarem as on9as, «um liquido que fazia adormecer imediatamente quern
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o cheirava»42, e uma contra-arma encomendada pelas oi^as, «um liquido
espesso e malcheiroso que os milhafres lan9aram a noite para a aldeia dos
leoes»43, e que os fez perder o pelo.
Depois de um desastre ecologico, qual mare negra — «o novo furo atirou
tanta agua lilas ca para fora que as represas nao aguentaram e era agora um
riacho que descia a montanha e se perdia no meio do rio Lupi, la em baixo,
na planicie, matando todos os peixes e ras»44 —, o leitor toma conhecimento
do esgotamento do recurso: «Um dia acordaram com uma noticia horrivel.
A agua parou de sair dos dois furos. Nem uma gota.»45
A Montanha da Agua Lilas conta a historia de um colapso, no sentido
que Jared Diamond lhe atxibuiu46: uma forma de declinio social desencadeado
por problemas ecologicos. Aos exemplos historicos de extin9ao de sociedades,
dos quais os da Ilha de Pascoa, das cidades Maias, e de Angkor Wat e outros
aglomerados do vale do Indo sao talvez os mais conhecidos, pode agora acres-
centar-se a alegoria de Pepetela: uma montanha que pode ser em qualquer
parte — «em muitos lados pode ter uma montanha semelhante»47. Neste
'ecocidio', tal como noutros reais que se encontram documentados, todos os
elementos da sociedade emigraram e foram subjugados pelos povos da vizi-
nhan9a. Na montanha da agua lilas so ficaram o lupi-pensador e o lupi-poeta,
numa existencia tranquila ainda que saudosa, gozando o Morro da Poesia
e o aroma de algumas gotas de agua lilas que, algum tempo depois, foram
ressurgindo. Nos seus poemas, o lupi-poeta escreveu «a historia dos lupis e
da agua lilas. Tambem da desgra9a que se abateu sobre eles e seu destino»48.
Com Pepetela, tal como com Diamond, o leitor identifica como as respostas
sociais e as rela9oes de vizinhan9a, aliados aos danos ambientais perpetrados
inadvertidamente, contribuem para a queda de civiliza9oes.
«Aprenderao eles com a estoria?»49 e a ultima frase da fabula.
leituras pelo ambiente
A fabula, que Pepetela quer para todas as idades, alerta para o caracter
finito dos recursos naturais e para a necessidade da sua gestao adequada.
Crescimento ou desenvolvimento, o que e a sustentabilidade? O texto res-
ponde como catalizador de uma reflexao sobre os tres componentes geral-
mente identificados: 1) a sustentabilidade ambiental, entendida como a
capacidade do meio de manter indefinidamente as suas fiu^oes proprias; 2) a
sustentabilidade economica, entendida como a forma de atingir crescimento
economico respeitando os limites ambientais, minimizando os prejuizos no
meio natural e fazendo um uso adequado dos recursos; 3) a sustentabilidade
social, entendida como o conjunto das a9oes e esfor9os destinados a promover
um desenvolvimento que nao diminua os recursos sociais e humanos, mas que,
pelo contrario, contribua para refo^ar o seu potencial.
8
Para alem de uma tematica e uma terminologia que pertencem ao discurso
ambientalista, servindo-se de metaforas para as personagens (os lupis e os ani-
mais da planicie) e para os objetos (a agua lilas), A Montanha da Agua Lilds
incorpora ingredientes da chamada «imaginacao ambiental»50, sugerindo a
responsabilidade dos humanos para com o ambiente e apresentando-o como
um processo, nao como uma constante ou uma dadiva. Ao mesmo tempo,
a sua analise e suscetivel de promover a aquisicao de todas as competencias
expressas no quadro da Educacao para o Desenvolvimento Sustentavel51: 1)
antever um futuro melhor e akernativo {envisioning); 2) aprender a questionar
as formas atuais de pensar e agir {critical thinking); 3) reconhecer complexida-
des e procurar as relacoes e sinergias necessarias para a solucao dos problemas
{systemic thinking); 4) promover o dialogo e a negociacao e aprender a traba-
lhar em grupo {buildingpartnerships); 5) capacitar as pessoas para o processo
de decisao {participation in decision-making).
Outras fabulas, populares ou eruditas, parecem tambem encerrar um
potencial educativo no quadro dos desafios ambientais da atualidade. Para
alem de O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, sugerem-se olhares ecocri-
ticos sobre as fabulas que o mesmo escritor agrupou em Area de Noelll Classe
(1936), e painBichos (1940), de Miguel Torga. De entre a mais recente produ-
cao literaria, havera tambem lugar para identica reflexao sobre a serie de Contos
daMata dosMedos, de Alvaro Magalhaes52, ou Fabuldrio (1984), de Mario de
Carvalho. Aos estudos literarios abre-se uma oportunidade para valorizar um
genero que tern tradicao relevante no panorama da lingua portuguesa, estabe-
lecendo pontes de interdisciplinaridade com as ciencias naturais e sociais.
NOTAS
1 Willliam Rueckert, «Literature and Ecology: an Experiment in Ecocriticism», The Iowa
Review, 9.1, Inverno 1978, p. 71-86.
2 c.f. asle — Association for the Study of Literature and Environment, <htpp://www.asle.
org/>,cons. 10-08-2011.
3 Greg Garrard, «Ecocriticism: The Ability to Investigate Cultural Artefacts from an Ecological
Perspective », in A. Stibbe (ed.), The Handbook ofSustainability Literacy, Totnes, Green Books,
2009. <http://arts.brighton.ac.uk/stibbe-handbook-of-sustainabilitiy/literacy/chapters/
ecocriticism>, p. 1. Traducao minha.
4 John Baird Callicott, Beyond the Land Ethic: More Essays in Environmental Philosophy, Albany,
State University of New York Press, 1999.
5 E.g. Richard Kahn, «From Education for Sustainable Development to Ecopedagogy:
Sustaining Capitalism or Sustaining Life ?», Green Theory & Praxis: The Journal of Ecopedagogy,
9
vol. 4, n.° 1, 2008, p. 1-14.
6 Lawrence Buell, Writing for an Endangered World: Literature, Culture, and Environment in US.
and Beyond, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 2001, p. 29.
7 John Felstiner, Can Poetry Save the Earth? A Field Guide to Nature Poems, New Haven, Yale
University Press, 2009, p. 3.
8 David Lewis, Dennis Rodgers e Michael Woolcock, «The Fiction of Development: Literary
Representation as a Source of Authoritative Knowledge», Journal of Development Studies,
vol. 44, n.° 2, 2008, p. 198-216. Traducao minha.
9 Paula Cristina Costa, Antonio Ramos Rosa, Um Poeta in Fabula, Vila Nova de Famalicao,
Edicoes Quasi, 2005, p. 282.
10 C.f. unesco, «Education for Sustainable Development:*, <http://www.unesco.org/new/
en/education/themes/leading-the-international-agenda/education-for-sustainable-develop-
ment/^ cons. 10-08-2011.
11 e.g. Joao Paulo Silvestre, «Definicao e uso dos termos fabula e fabuloso em textos metalinguis-
ticos do seculo XVIII», Forma Breve. Revista de Literatura, n.° 3, 2005, p. 159.
12 Nelly Novaes Coelho, «Fabula», E-Diciondrio de Termos Literdrios, coord. Carlos Ceia,
<http://www.edtl.com.pt>, cons. 10-08-2011.
13 ldem,ibid.
14 Luciano Pereira, A Fabula em Portugal. Contributospara a Histdria e Caracterizacdo da Fabula
Literdria, Porto, Profedicoes, 2007, p. 256.
15 Tonia Payne, «How Do We See Green? Ursula K. Le Guin's SF/Fantasy and the Environmental
Paradigm Shift», in A. I. Queiroz e I. Ornellas e Castro (coord.), Falas da Terra no Seculo XXI.
What Do We See Green?, Lisboa, Esfera do Caos,2011,p. 100. Traducao minha.
16 John Felstiner, ob. tit., p. 6. Traducao minha.
17 Joao Evangelista, Educacao Ambiental: Uma Via deheitura e Compreensdo, Lisboa, Institute de
Inovacao Educacional, 1999, p. 24.
18 Luciano Pereira, ob. tit., p. 252-3, 271-2.
19 Aquilino Ribeiro, O Romance da Raposa, Lisboa, Bertrand, 1961, p. 8-9.
20 Michael Metzeltin, Introduced a Leitura do Romance da Raposa. Ciencia do Texto e Sua Aplica-
cdo, Coimbra, Livraria Almedina, 1981, p. 104.
21 Edward Clayton, «Aesop, Aristotle, and Animals: The Role of Fables in Human Life»,
Humanitas, vol. XXI, n.° 1-2, 2008, p. 197. Traducao minha.
22 Mark Johnson, 1993, apud Marina P. A. Lencastre, «Etica Ambiental e Educacao. Considera-
coes sobre o Sujeito Moral», Educacao, Sociedade & Culturas, n.° 21, 2003, p. 54.
23 Maria Jose Varandas, Ambiente, Uma Questdo de Etica, Lisboa, Esfera do Caos, 2009, p. 11.
24 Ana Paula Guimaraes, «Ser — dantes e ainda hoje, discretamente — verde», in A. I. Queiroz
e I. Ornellas e Castro (coord.), ob. tit., p. 35.
25 Catia M. Costa, «Da Etnicidade ao Simbolismo. Tres olhares antropoliterarios sobre a etnia
Kuvale », in Guardianes de la Historia y de la memoria: 'tradiciones', colecciones y outras mani-
festations (in)materiales delpertodo colonial, 1-19,7.° Congresso Iberico de Estudos Africanos.
<http:/hdl.handle.net/10071/2247>, p. 1.
26 Carmen Secco, «As Aguas Miticas da Memoria e a Alegoria do Tempo e do Saber», Revista
Brasil de Literatura. <htpp://revistabrasil.org/revista/artigos/tindo.htm>.
27 Nunojudice, «Novo Itinerario de Inverno», Obra Poetica (1972-1985), Lisboa, Quetzal, 1991,
p. 195.
28 Cf. Laura Cavalcante Padilha, Entre Voz e Letra. A Ancestralidade na Literatura Angolana, ed.
10
Jose Manuel da Nobrega e Nuno Padua de Mora, Lisboa, Novo Imbondeiro, 2005, p. 44.
29 Pepetela, A Montanha daAgua Lilds (Fdbulapara todas as idades), 5.a ed., Lisboa, Publicacoes
Dom Quixote, 2007, p.13.
30 Idem, ibid., p. 22.
31 Ibid.
32 Ibid., p. 47.
33 Ibid., p. 27.
34 Aid., p. 33.
35 Ibid., p. 39.
36 Ibid., p. 34.
37 Ibid., p. 98.
38 Ibid., p. 136.
39 Ibid., p. 145.
40 Ibid., p. 146.
"Aid., p. 146.
42 Aid., p. 132.
43Aid., p. 134.
44 Aid., p. 147.
45 Aid., p. 153.
46 Jared Diamond, Colapso. Ascensdo eQueda das Sociedades Humanas, trad. Ana Sampaio, Lisboa,
Gradiva, 2008.
47 Pepetela, ob tit., p. 22.
48 Aid., p.155.
49 Ibib.
50 Lawrence Buell, Environmental Imagination. Tboreau, Nature Writing, and the Formation of
American Culture, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1995.
51 C.f. Education for Sustainable Development Wikipedia. <http://en.wikipedia.org/wiki/
Education_for_Sustainable_Development>, cons. 10-08-2011.
52 Carlos Nogueira, «Natureza, Infancia e Sociedade nos Contos da Mata dos Medos», A. I.
Queiroz e I. Ornellas e Castro (coord.), ob. tit., p. 207-28.
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